quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A ração humana de Doria: o que tem a ver cultura e identidade com alimentação?


Renata Tomaz do Amaral RibeiroBacharela em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência nas áreas da antropologia da alimentação e antropologia urbana, da memória e da imagem, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura e alimentação, memória, meio ambiente, saberes e práticas sobre PANCs.










A ração humana de Doria: o que tem a ver cultura e identidade com alimentação?
Renata Tomaz do Amaral Ribeiro



            João Doria diz: “Pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome.”

Doria e a sua politica liberal estão desumanizando as pessoas!

         Como assim pobre não tem hábito alimentar? Se fosse possível resolver o problema da fome com soluções meramente nutricionais (só que NÃO é), poderia existir mais divulgação e fortes campanhas incentivando o cultivo e o consumo de Plantas Alimentícias não Convencionais - PANC, por exemplo. Deveriam haver oficinas e campanhas nas periferias para o aproveitamento de caules e folhas que normalmente são descartadas. Isso para não falar, que no Brasil NÃO HÁ ESCASSEZ DE ALIMENTO; se produz muito, mas nem todo mundo tem acesso.

O fato é que o problema da fome não é uma questão restritamente biológica, mas especialmente política e cultural. No caso em questão, não existe preocupação alguma com segurança alimentar, há, porém o evidente interesse do governo Doria de repassar ou isentar um valor substancial a mais uma empresa mafiosa. 

         Não apenas isto, esta é uma politica de desumanização da população pobre. Pessoas em situação de vulnerabilidade social devem ter sua cidadania e direitos garantidos. E isso inclui fundamentalmente uma alimentação nutritiva e que faça parte do imaginário coletivo da nossa sociedade. Feijão com Arroz, polenta com ovo frito, aipim na panela de ferro, purê de batata inglesa, batata-doce no forno, são alguns dos tantos pratos comuns no cotidiano do brasileiro. A comida guarda e revela identidades, visões de mundo, tradições… E consequentemente, ela nutri o corpo e a alma. E por mais que muita gente não acredite pobre é ser humano, além de nutrientes também precisa se alimentar de simbologia.

Obviamente que eu, que estudo as PANC, acho lindo que existam mais e mais pesquisas, campanhas e oficinas que divulguem e incentivem o consumo destas plantas. Todavia, para tanto é necessário que as politicas públicas estabelecidas levem em consideração as representações simbólicas e sociais de cada grupo, para que estas plantas sejam inseridas nos pratos cotidianos e típicos, respeitando a cultura e a identidade destes indivíduos. Esta seria uma das tantas opções melhores do que a ração humana do Doria!

Referências:

DA MATTA, Roberto. Sobre o simbolismo da comida no Brasil. O Correio da Unesco, Rio de Janeiro, v. 15.
FISCHLER, Claude. Las funciones de lo culinario. In: El ( h )omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.
GARINE, Igor de. Alimentação, culturas e sociedades. O Correio da Unesco, Rio de Janeiro, v. 15, 1987.
MACIEL, Maria Eunice. Cultura e alimentação ou o que tem a ver os macaquinhos de Koshima com Brillat-Savarin? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 7. 2001.

MENASCHE, Renata; ALVAREZ, Marcelo; COLLAÇO, Janine. Alimentação e cultura em suas múltiplas dimensões. In: ________ (Org.). Dimensões socioculturais da alimentação. Diálogos latino-americanos. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2012.


MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, 2001.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

QUALIDADE NA EDUCAÇÃO E A REALIDADE

Letícia Roxo é Licenciada em História pela FAPA, professora da Rede Pública Estadual













QUALIDADE NA EDUCAÇÃO E A REALIDADE 

            O artigo POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS: APONTAMENTOS SOBRE OS DIREITOS SOCIAIS NA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO de Cleia Simone Ferreira e
Everton Neves dos Santos aborda as políticas públicas como uma forma de garantir não somente o acesso, mas principalmente, a qualidade na educação, em especial, a pública no Brasil.

            Entre todas as leis voltadas a educação, e os autores se referem à educação escolar, eles se baseiam em três: LDB, ECA e a Constituição federal. Sendo que todas garantem a educação básica gratuita, a todos e com qualidade. Sendo conceituada como educação de qualidade “não trata somente dos métodos e processos educacionais, mas especialmente, o direito a educação cidadã que deve ser assegurada a todas as pessoas.” p. 147.

            Conforme o art. 37 da LDB, § 1 os sistemas de ensinos devem garantir “oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.” Não é bem isto que ocorre dentro das escolas públicas, sejam por falta de condições estruturais, recursos financeiros, interesse pedagógico e etc. O fato que todos os alunos não estão sendo atendidos e formados com qualidade.
           
            Já o parecer do CNE número 11 de 2000 deixa claro que ''A dívida social deve ser saudada como uma reparação corretiva, ainda que tardia, de estruturas arcaicas, possibilitando aos indivíduos novas inserções no mundo do trabalho, na vida social, nos espaços da estética e na abertura dos canais de participação. '' Será que os alunos têm realmente essas oportunidades? São-lhes oferecidos oportunidades dentro do sistema educacional para que a inserção ocorra? Qual é o papel da educação nessa inserção?
“O mesmo parecer do CNE fala que a educação tem um caráter qualitativo ‘‘É um apelo para a educação permanente e criação de uma sociedade educada para o universalismo, a solidariedade, a igualdade e a diversidade.” E acredito que só desta forma, a educação básica, deva educar e formar cidadãos. Pois poderemos falar em uma educação pública mais formativa, mesmo que os problemas estruturais e financeiros ainda perdurem. O ser humano pensará diferente, pois foi educado para um mundo mais inclusivo. Logo os interesses pedagógicos serão apenas ensino-aprendizagem.

            A preocupação dos autores se mostra em garantir que as leis sejam cumpridas e mais do que isso, que a escola proporcione uma educação inclusiva. Que forme cidadãos ativos e inclusos na sociedade, que construam o conhecimento e propaguem valores éticos e morais.

            Os autores analisam a importância das políticas públicas educacionais, da intervenção do Estado para o cumprimento de tais políticas para que os objetivos propostos, pelas mesmas, sejam alcançados.



Crianças de 5ª série que não sabem ler nem escrever, salários.
baixos para todos os profissionais da escola, equipes desestimuladas, famílias desinteressadas pelo que acontece com seus filhos nas salas de aula, qualidade que deixa a desejar, professores que fingem que ensinam e alunos que fingem que
aprendem. O quadro da Educação brasileira (sobretudo a pública) está cada vez mais desanimador. [...] (BENCINI, 2006).

A qualidade da educação, especialmente nas escolas públicas não podem ser construídas com base em políticas quantitativas e privatizadoras, em que a escola particular seja símbolo de eficiência, mas em programas que tenham no resgate da qualidade da escola pública a sua força para alcançar efetivamente um melhor nível educacional.

A QUALIDADE do ensino tem sido foco de discussão intensa, especialmente na educação pública. Educadores, dirigentes políticos, mídia e, nos últimos tempos, economistas, empresários, consultores empresariais e técnicos em planejamento têm ocupado boa parte do espaço dos educadores, emitindo receitas, soluções técnicas e, não raro, sugerindo a incompetência dos educadores para produzir soluções que empolguem a qualificação do ensino. Essa invasão de profissionais não identificados ou não envolvidos com as atividades do campo educacional merece uma reflexão. Não se trata aqui de preconizar o monopólio da discussão da educação aos educadores, mas de registrar a intensa penetração ideológica das análises, dos procedimentos e das receitas tecnocráticas à educação (AZEVEDO, 2007).

Mas como falar em qualidade em educação? Políticas públicas educacionais? Quando, hoje, lutamos por Xerox na escola para trabalhos e provas, papel higiênico nos banheiros, salas de aula com menos alunos, com piso no chão ou lâmpadas. Aguardamos profissionais de orientação e supervisão que são raros atualmente, funcionários da secretária, limpeza ou cozinha, ou seja, recursos humanos especializados. Privamos-nos de planejar uma aula mais moderna e que utilize recursos pedagógicos específicos, pois a maioria das escolas não dispõe de sala de informática, data show,  uma simples sala de vídeo às vezes. Mas pior é quando temos esses recursos e não podemos usá-los, pois a rede elétrica da escola não suporta. Não podemos esquecer a merenda que não permite saciar a fome de muitos alunos, porque com R$ 0,30 por aluno não é possível fazer milagres.

Pergunto-me como analisar teoricamente qualidade na educação quando na realidade temos uma parcela representativa de alunos ligados ao tráfico de drogas e a prostituição, com passagens pelo Deca, com famílias desorganizadas, onde pais e mães estão privados de liberdade ou sofrem violências de várias naturezas. São alunos carentes financeiramente e podemos observar que alguns buscam na escola uma alimentação diária. Além da carência econômica são carentes emocionalmente, se mostrando revoltados, agressivos. A cada dia perdemos nossas crianças e adolescentes para a violência das ruas, tráfico de drogas, para a prostituição, gravidez precoce, para o trabalho infantil, o desinteresse quando nossa ação educativa deveria ser mais transformadora e atraí-los para boas ações e aprendizados.

A escola estadual esta sucateada necessitando de melhorias, reformas e investimentos públicos. O que podemos analisar é o total descaso do poder público com os alunos e com a educação publica. Onde não há infraestrutura, recursos humanos e a realidade social dos alunos são agravantes para dificuldade de aprendizagem e a evasão escolar que se apresenta. Dados do IDEP para o ensino médio sintetiza bem a estagnação dessa etapa no país. Pouco atraídos pelo aprendizado, um em cada dez estudantes do ensino médio abandonam as salas de aula antes do término do ano letivo. E dados do MEC trazem um cenário assustador, pois nossos adolescentes e jovens adultos estão mais propensos a trocar os estudos pelo trabalho. Para FUKUI (in BRANDÃO et al, 1983) relata a responsabilidade da escola afirmando que “o fenômeno da evasão e repetência esta longe de ser fruto de características individuais dos alunos e suas famílias. Ao contrário refletem a forma como a escola recebe e exerce ação sobre os membros destes diferentes segmentos da sociedade”.

Para finalizarmos temos os professores que não conseguem se manter estudando e se atualizando, pois estes cursos são onerosos e esperar pelo Estado é garantia de decepção e ilusão. Temos uma escola, ainda conteudista, rígida no que se refere a currículo, antiquada tecnologicamente e com algumas resistências a modernização. Embora tenhamos muitos professores buscando inovar, se qualificar, trabalhar utilizando novos recursos e modernizar suas metodologias, ainda encontramos uma grande resistência docente.

Além de termos que a todo o momento nos defender de um Estado que atribui os péssimos índices da educação pública a nós, professores, ultimamente, precisamos nos defender da sociedade que nos culpa pelo baixo rendimento dos alunos, pelo péssimo comportamento, nos culpa inclusive pelas agressões físicas e verbais que sofremos de alunos e suas famílias.

Depois deste pequeno panorama da escola pública como posso falar em qualidade da educação? A muito não tem qualidade. Onde o Estado se omite de suas responsabilidades aumenta os problemas sociais e reflete diretamente dentro da escola. As políticas públicas educacionais, se cumpridas, deveriam amenizar essa realidade, oportunizando educação com as mínimas condições pedagógicas, administrativas e de infraestrutura para alunos mais necessitados.

E como pensar em qualidade frente a tudo que foi elencado até agora? Pra complicar vamos adicionar a política dos governos em vigor: Políticas que precarizam ainda mais a educação, saúde, segurança. Politicas que retiram direitos dos trabalhadores e que dão ao patrão total controle da situação (desigual). Que a maior intenção é privatizar, ou seja, entregar nas mãos da iniciativa privada o que é responsabilidade do Estado para com a sociedade.

Não podemos deixar que eles concretizem seus planos políticos. É necessário que a sociedade acorde deste transe lunático no qual está e defenda seus direitos, que defenda o patrimônio publico que demonstre e ensine cidadania a todos. Somos uma parte importante do processo democrático, que tenhamos consciência e usemos do poder que temos juntos para garantir cumprimento da lei e a não concretização dos planos políticos desses governos.


domingo, 1 de outubro de 2017

O moralismo na agenda pública e a necessidade de um discurso de esperança


Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de causas sociais


O moralismo na agenda pública e a necessidade de um discurso de esperança



A insatisfação do eleitor com a política e com os políticos tem aumentado a cada dia. Constantes investigações encampadas pelo Ministério Público têm desnudado certos crimes de alguns (não poucos) políticos que se utilizaram e, ainda, se utilizam da vida pública para autopromoção e enriquecimento ilícito.
Agregado a isso, a forte cobertura da imprensa, sobretudo em difundir vazamentos seletivos dessas investigações, tem feito com que o eleitor receba uma carga de constantes notícias negativas da classe política, incorporando, então, um discurso que considera a política como a geradora dos grandes males em uma sociedade que atravessa determinado período de crise.
De acordo com o site “Manchetômetro”1, entre os meses de janeiro e setembro de 2017, os jornais Estadão, Folha de São Paulo, Jornal Nacional e O Globo, apresentaram cerca de 7 mil matérias jornalísticas “contrárias” à política. No entanto, somente 800 matérias “favoráveis” foram veiculadas por esses mesmos jornais. Nesses cálculos, não estamos nos referindo nem às matérias que apresentam certa “ambivalência”, nem àquelas consideradas “neutras” pelos pesquisadores.
Quando nos atemos aos “partidos políticos”, somente no mês de maio de 2017, os já referidos jornais apresentaram pouco mais de 200 matérias contrárias ao PT (mês em que o PT teve mais notícias negativas). Já as notícias favoráveis, somando os nove meses em questão, não chega a um número de 30 notícias.
Quando o partido político pesquisado é o PSDB, o mês de junho é o de maior número de notícias negativas, em que o partido quase alcança 80 notícias contrárias veiculadas na imprensa. No mesmo mês, o PSDB quase alcançou 20 notícias favoráveis, praticamente superando PT em notícias positivas somente em um único mês. Além disso, paradoxalmente, junho também foi o mês em que o partido teve o maior número de notícias positivas veiculadas.
Ao compararmos as notícias sobre Lula e Aécio Neves, o petista superou a marca de 225 notícias negativas somente no mês de maio, enquanto Aécio, no mês de junho, mês em que teve o maior número de notícias contrárias a si, alcançou cerca de 70 notícias. Quanto as positivas, Aécio Neves superou Lula em todos os meses.
Como é possível verificar, notícias negativas relacionadas à política e aos políticos são amplamente difundidas para o eleitor. No entanto, nem todos os partidos e nem todos os políticos recebem o mesmo tratamento. Lula e o PT são alvos de constantes notícias contrárias que são levadas diariamente à casa do eleitorado brasileiro. O tucano Aécio Neves e o seu partido, o PSDB, estão bem menos na mídia do que os petistas. E, quando as notícias são negativas, as positivas também aparecem no sentido de minimizar os ataques.
Ou seja, por mais que Lula e o seu partido sofram diariamente com uma grande quantidade de notícias negativas, nenhum partido e nenhum político passam incólumes.
Nesse sentido, é importante trazer ao debate o que fora escrito pelo juíz federal Sergio Moro (2004, p. 57), juiz responsável pela Operação Lava Jato no âmbito da Justiça Federal de Curitiba, no texto “Considerações sobre a operação Mani Pulite”, que ocorrera na Itália:
A independência judiciária interna e externa, a progressiva deslegitimação de um sistema político corrupto e a maior legitimação da magistratura em relação aos políticos profissionais foram, portanto, as condições que tornaram possível o círculo virtuoso gerado pela operação mani pulite. (Grifo meu).
Ora, como é possível perceber, há uma estratégia traçada nas constantes investigações que estão sendo conduzidas no Brasil, que é a estratégia da deslegitimação da política e dos políticos profissionais. Para tanto, tende a ser extramente frutífero o trabalho realizado conjuntamente pelos agentes do sistema de justiça e a imprensa.
Assim como a operação Mani Pulite, na Itália, buscou a deslegitimação da classe política, no Brasil, para que quaisquer operações contra corruptos e corruptores fossem bem sucedidas, supõe-se a necessidade de incorporar tal estratégia, pois “enquanto ela (a ação judicial) contar com o apoio da opinião pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados” (MORO, 2004, p. 61).
Nessa lógica, todos os políticos e todos os partidos políticos passam a ser alvos da imprensa, pois a descontituição da política é a legitimação da justiça. Ou seja, desconstituir é também legitimar.
Seguindo nessa linha de desconstituição e trabalho conjunto, o Ministério Público começa a promover campanhas contra a corrupção e pela moralização do setor público, se transformando em uma espécie de “bastião da moralidade”. O Projeto Lei que cria as 10 medidas contra a corrupção é apresentado e defendido a tal ponto que a instituição cria um website para elucidar o texto e acompanhar, de forma pública, a tramitação do projeto no Congresso Nacional.
O projeto que prevê a utilização de provas em processos colhidos de forma ilegal, desde que tenha sido realizada de boa fé, e, também, limita a utilização do habeas corpus não é nenhuma unanimidade inclusive entre os agentes do sistema de justiça. Segundo alguns juristas e membros do Supremo Tribunal Federal, como o Ministro Gilmar Mendes, por exemplo, o Projeto de Lei encampado pelo Ministério Público dificulta a defesa dos investigados e restringe direitos.
Como defesa, o Ministério Público cita a necessidade de limpar a política da corrupção. Nesse sentido, o ambiente criado é de que todos aqueles que se colocam de forma contrária ao projeto parecem estar favoráveis a corrupção.
Ora, quanto mais se debate sobre corrupção, mais há necessidade de se apresentar um caminho de esperança. As investidas de alguns agentes do sistema de justiça em conjunto com a imprensa têm levado o debate, nas ruas, a centralizar naquele que eles elegeram como o grande problema: a corrupção.
Não que a corrupção não deva ser combatida. Longe disso! Só que, enquanto passamos horas e horas falando da corrupção e elegendo os políticos para atacar, políticas de redução do Estado e de precarização do serviço público vem sendo implementadas.
No governo federal, o orçamento para políticas sociais tem sido cada vez menor. A educação, a saúde e a assistência social tem tido cada vez menos investimento público.
No Rio Grande do Sul, parcelamento de salários e a extinção de fundações e autarquias estatais são a tônica do processo político.
Por isso, é preciso apresentar um novo caminho às pessoas. Um caminho de esperança!
É preciso relembrar que o Brasil já havia se livrado da fome. É preciso relembrar que é possível aumentar os salários dos servidores públicos estaduais e utilizar essa forma de governar para aquecer a economia.
E é preciso mais. É preciso construir saídas para toda essa crise com a participação das pessoas. É preciso fazer com que as pessoas voltem a acreditar na política, por mais difícil que isso pareça ser nesse momento.
A esperança é capaz de vencer o ódio!

1 “Manchetômetro” é um website sobre temas de economia e política, criado pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que tem por objetivo acompanhar a cobertura jornalística dos principais jornais do país em relação aos temas já citados.

sábado, 23 de setembro de 2017

ESTAMOS DOENTES

Letícia Roxo é Licenciada em História pela FAPA - Professora da Rede Pública Estadual.













                                                          ESTAMOS DOENTES

                        Nos últimos dias tenho pensado sobre os motivos da licença saúde do governador do Estado do Rio Grande do Sul que alegou estar estressado. Não duvido do stress do governador, no entanto questiono a intensidade desse stress em comparação a qualquer servidor público do Estado. A atual realidade financeira e psicológica  dos servidores me parece muito mais complicada de resolver. Afinal, o governador entra em licença e vai para um Resort caríssimo no Costão do Santinho relaxar. E o servidor pode fazer o mesmo? Creio que não! Quando que um servidor que tem seu salário defasado e parcelado a 21 meses, onde Banrisul lhe cobra juros em cima de juros, onde ele deve aluguel, condomínio, luz, cartão de crédito e etc. vai poder descansar no litoral catarinense num Resort caro?

                        Especificamente, professores e funcionários de escola não conseguem sequer descansar, pois todo mês é um tormento. Chegamos a uma conclusão muito triste: profissionais da educação aqui no RS não têm qualidade de vida, seja pela desvalorização e humilhação em que tem vivido a quase dois anos com estes parcelamentos, falta de reajustes e aumento salarial, seja pelas condições nas quais trabalha: escolas sucateadas, salas lotadas, falta de infraestrutura, falta de incentivo no aperfeiçoamento educacional, indisciplina de alunos, falta de respeito da sociedade, e por ai vai.

                        O artigo QUALIDADE DE VIDA DOS PROFESSORES: UM BEM PARA TODOS de Martins Vicente Rodriguez Y Rodriguez e Joemar Braga Alves aborda o tema da qualidade de vida dos docentes.  Relaciona a qualidade de vida a fatores como saúde, ambiente de trabalho e motivação para a prática docente.

                        Os autores identificam a desvalorização da profissão, o desrespeito do profissional, péssimas condições de trabalho, falta de incentivo financeiro e acadêmico, geram problemas psicológicos, psiquiátricos, cardíacos, depressão e estresse, muito comum entre os professores.

                        O impedimento da profissão docente em função de adoecimento do profissional é um tema relevante, principalmente nos dias contemporâneos, e no Estado do Rio Grande do Sul, onde as preocupações dos profissionais com a qualidade do ensino é culpabilizada a nós, professores, onde o ambiente e a infraestrutura de trabalho são muitas vezes precárias, onde as políticas públicas que priorizam a educação não são cumpridas e por fim, o desrespeito e a desvalorização do professor, tanto pela sociedade quanto, principalmente, do governo são constantes.

             O ataque de um projeto de governo que ridiculariza a classe, parcela salários, que não cumpre com o que é estabelecido em lei e não é responsabilizado judicialmente e, ainda, faz declarações públicas ameaçando o servidor. Estas questões contribuem e muito para o adoecimento psicológico e o desespero financeiro do docente. Neste contexto, os autores, na pág. 12 citam Perrenoud e Nóvoa.

“Os problemas vividos pelos professores”, no atual contexto da pós-modernidade, são examinados e explorados para se tentar chamar a atenção da sociedade, de que o insucesso escolar não é de responsabilidade única do professor, mas está relacionado com a forma em que a sociedade atual trata a própria escola e a educação. Nessa perspectiva, um elemento importante, reconhecido com um dos responsáveis para desencadear e moldar o “mal estar docente”, é a falta de apoio, as críticas, a negação de legitimidade à escola para desempenhar um papel significativo na formação de sujeitos profissionais e cidadãos (PERRENOUD, 1997; ESTEVE, 1999; NÓVOA, 1995).


                     Como educar, ensinar, construir o conhecimento com a sociedade se não estamos saudáveis, motivados? É necessário que a sociedade e o governo percebam que é muito difícil melhorar a qualidade de ensino se não derem condições físicas, intelectuais, financeiras e psicológicas, além de reconhecimento e respeito que os profissionais em educação tanto precisam e merecem. Os autores trazem a síndrome de “burnout” como uma consequência direta desse quadro. Onde, conforme eles, o docente acaba desenvolvendo um stress crônico e passa a demonstrar sintomas agressivos a sua saúde e a sua profissão. 


“Está configurada num quadro de apatia, desânimo, situação crônica de tensão emocional e de insatisfação com o que fazem. Tem como indicadores: a baixa produtividade do professor como consequência da síndrome; uma situação crônica de tensão emocional, de insatisfação com o que fazem, enquanto persistem nessa situação de desconforto e permanência no trabalho; a revelação de atitudes negativas frente às tarefas típicas da sua função; apresentam dificuldades de relacionamento com os colegas de trabalho e com os alunos; estão em permanente esgotamento emocional e passam a justificar, com isso, sua apatia, sua falta de esforço no trabalho.” (pág. 15).

                          Por fim, afirmam que a motivação é um dos fatores que levam a melhoria da qualidade de vida pessoal e profissional do ser humano.  Logo a motivação atua na busca da satisfação em ter seus interesses realizados com êxito. Isso faz com que o ser humano encontre razão e busque realizar a suas necessidades. Essa motivação é de diversas origens, podendo ser respeito e valorização profissional, incentivos acadêmicos, elogios públicos, plano de carreira e remuneração atrativa e etc.

                         As relações de trabalho e as condições são determinantes para a boa ou má saúde do trabalhador, assim percebemos que o ambiente e a relação que se estabelece entre e o meio e o professor influência em seu comportamento e sua saúde. Desta forma, investir na qualidade de vida do profissional da educação é se preocupar com a evolução da sociedade, é repensar o significado de educação e concluir que saúde física, psicológica, psiquiátrica do professor é uma necessidade social.

                   Portanto, estamos doentes, é fato! Mas que a doença da categoria seja o gatilho, a faísca para exigirmos melhorias que possam nos curar. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Greves, Lutas e Inimigos na Trincheira



Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS



Greve, Lutas e Inimigos na Trincheira


          Nas duas últimas semanas dividi o meu tempo entre as aulas no Curso de Ciências Sociais na UFRGS, algumas atividades como assistir a um seminário de ações afirmativas e um lançamento do livro “Ricos podres de ricos” do Professor Antônio David Cattani e militância em relação a greve que os educadores do RS estão realizando, mas o porquê desse relato ao meu querido leitor.
     Em um primeiro momento minha militância de educador e minhas atividades acadêmicas talvez não se embriquem, mas é justamente o contrário que me instiga a essa reflexão.
       No lançamento do excelente livro “Ricos podres de ricos” do Professor da UFRGS Antônio David Cattani, eu e os demais presentes fomos contemplados com uma excelente palestra de Cientistas Sociais, Aliás Ciência é algo que parece não ter mais vez em tempos TEMERÁRIOS, pois cada vez o ato de pensar e produzir reflexões sofre com a perda de recursos, mas voltando a palestra sai dela ainda mais convicto que boa parte dos oprimidos repetem o discurso do opressor, e não apenas o discurso, mas seu ideário e sistemática de ações.
       O Seminário de ações afirmativas realizado em dois dias, também trouxeram a tona fatos angustiantes. Alguns conhecidos e outros explicitados com maior amplitude e também nesse seminário a certeza de que o fã clube dos opressores aumenta cada vez mais.
E chego na minha terceira citação em termos de rotina que é justamente a greve dos educadores, greve essa originada em função da perda total da nossa dignidade, pois perante ao atual governo do estado, o funcionalismo público menos ( a elite judiciária e legislativa) não precisa de salários. Antes que algum incauto tente me alertar das destinações independentes dos poderes na questão orçamentária, friso que a independência, ainda que prevista na lei, recorre em termos de arrecadação a uma única fonte, portanto os argumentos podem ser legais, mas no mínimo não mantém o bom senso e o princípio da isonomia, mas sem ser prolixo e indo ao ponto comum entre minhas três citações, também na greve presenciei que boa parte de servidores que igualmente são aviltados, além de não aderirem a uma luta que é de toda categoria, também somam-se aos mesmos que os oprimem e sendo assim fazem do seu egocentrismo e ideário opressor, destituído de qualquer sentimento de classes uma tônica triste e inapropriada. Defendem os donos do poder, defendem o ideário de uma classe a qual não pertencem e tudo isso me leva de volta aos seminários assistidos e principalmente a leitura do livro “ Ricos, podres de ricos” do Professor Cattani.
       Acreditem na greve dos educadores, alguns educadores assumiram o papel de inimigos na trincheira, não apenas boicotando, como refutando todos esforços de quem está na luta em prol dos direitos que contemplam toda classe. Houve um tempo onde as greves da educação eram prejudicadas pelo anseio de uma parte de educadores em relação ao seu período de férias, porém hoje não é mais essa uma questão impeditiva e ai cito palavras do Professor Catanni em sua palestra que um dos males que estamos enfrentando nessa luta contra o consumismo exacerbado é a de que o ideário neoliberal deixou de ser plataforma de governo para se configurar em ideário de vida pessoal. Deve ser esse o tipo de ideário que perpassa na mente de um educador que boicota o seu colega no ato de uma luta que é de todos.
       Deve ser esse o ideário que faz com que nossas trincheiras componham um bom número de inimigos.
         Deixo essa frase do livro “Ricos, podres de ricos” como reflexão aos colegas que não estão com água no pescoço e no alto do seu egocentrismo refutam quem está de greve e militando pela classe:
“Um indivíduo pode ter posses acima da média e isso não significa nada, uma vez que ele não chega aos pés dos verdadeiramente ricos”.(Cattani, Antônio David pg 25)


      Portanto sequer combina com uma classe tão defasada em termos de remuneração a adoção do ideário de uma classe da qual não fazem parte.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

GREVE DO MAGISTÉRIO ESTADUAL DO RS

Josiane Bandinelli é Licenciada em Biologia pela PUCRS - Mestre em Biologia Celular e Molecular pela PUCRS, professora da Rede Pública Estadual.











GREVE DO MAGISTÉRIO ESTADUAL DO RS



                        Muitos criticam os professores do magistério estadual que estão em greve... Infelizmente, a comunidade, em geral, segue sempre com o seu imenso egocentrismo, com dificuldades mil em se pôr no lugar do outro. Trabalhar e não receber... ninguém pode, exceto professores, pois os alunos serão prejudicados. Cá entre nós... os alunos estão sendo prejudicados a décadas! 

                       Com professores desmotivados, sobrecarregados (pois é preciso trabalhar muitas horas em sala de aula para conseguir pagar suas despesas básicas. Falo básicas mesmo... sem luxo algum! Nem mesmo comprar livros, participar de eventos culturais, realizar cursos de aperfeiçoamento... e por aí vai!). O que é importante para a sociedade é ter um “professor” dentro da sala de aula, indiferente se a disciplina que lhe é ofertada seja a da sua área de formação, indiferente se a saúde física e emocional desse professor vai bem. Isso é qualidade? 

         Escolas caindo aos pedaços, ambientes deprimidos, sucateados... Salas de aula insuportavelmente quentes, sem cortinas adequadas, com uma péssima acústica, lotadas... onde o professor passa mais tempo pedindo silêncio do que discutindo o conteúdo. Os alunos chegam na escola querendo ir embora... O professor chega na escola querendo ir embora... Isso é qualidade?! Isso tudo é só culpa do professor? Por favor, não sejamos hipócritas!!! 

                  Todos estamos cientes que o salário do magistério estadual sempre foi baixo, mas o que confortava a muitos de nós era o simples fato de saber que no final do mês, o salário era pago. E agora... o que nos conforta???

                Há quem diga que greve nunca resolveu e nem nunca irá resolver nada, mas seguir angustiado, tenso, estressado, infeliz com a insegurança de não saber se terá salário para honrar as despesas, para por comida na mesa, para pagar a água e a luz, para se vestir, para se deslocar, resolve?! É justo os professores com seu salário miserável, parcelado e atrasado ficarem pagando (o que não tem) para trabalhar??? Ficar assistindo a tudo que tem acontecido em nossa sociedade de braços cruzados, agindo como se tudo estivesse como deveria estar, resolve?

                  Poxa gente... Sabe o que resolveria... a sociedade apoiar, de fato, a greve dos professores estaduais. Afinal, seus filhos estão no mesmo ambiente que nós. Nós estamos do mesmo lado da balança!!!! Será que é tão difícil enxergar isso??? Imaginem se o governo resolvesse fechar as escolas públicas estaduais... já pararam para pensar??? Onde iriam estudar a maior parte dos alunos do estado do Rio Grande do Sul que dependem da escola pública estadual??? É por isso que eu digo que estamos do mesmo lado!!!

                  Estamos tão arrasados com essa situação que precisamos fazer alguma coisa! Do jeito que está não dá mais para continuar!!! O estado já vem perdendo professores a anos e se as coisas continuarem assim... vai perder ainda mais. É por isso a nossa luta!!!! Precisamos nos apoiar!!!! 

                  Precisamos estarmos juntos!!! Juntos... alunos, pais, professores... só assim essa greve pode fazer a diferença para todos nós!

sábado, 16 de setembro de 2017

Reflexões acerca da reorganização das esquerdas


Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais na UFRGS e Militante de Causas Sociais.




Reflexões acerca da reorganização das esquerdas

Contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática.” Antonio Gramsci.
Depois de alguns anos de certo otimismo social no Brasil, em que governos de alinhamento popular com viés ideológico de centroesquerda promoveram políticas de superação da extrema pobreza e da fome, políticas de inclusão social e econômica, o país volta a mergulhar em um período obscuro de avanço das forças neoliberais, nos governos, e das forças extremamente conservadoras, na sociedade, que disputam, ferrenhamente, o processo de hegemonia.
O início dos anos 2000, o tão esperado século XXI, chegou trazendo novos ares às terras brasileiras. Pela primeira vez na história da nova república um partido ideologicamente posicionado à esquerda, no campo político, governaria o país a partir de eleição majoritária.
É verdade que Luís Inácio Lula da Silva chegou ao governo federal com a promessa de manter a conciliação entre as classes sociais, o que foi expresso na tão comentada “Carta ao Povo Brasileiro”, mas também é verdade que Lula e o PT levaram consigo a esperança de um povo excluído, desde o processo de colonização do Brasil, tanto na esfera econômica, quanto social.
É inegável o sucesso dos governos petistas. Milhões de brasileiros fora da linha da miséria, milhares de jovens nas universidades a partir do PROUNI, REUNI, SISU, FIES, uma ampla política de cotas raciais e sociais, pleno emprego, etc.. Do outro lado, aumento dos lucros dos bancos e das grandes empresas, sobretudo das responsáveis pelos setores automobilístico e da construção civil. Ou seja, assim como as políticas do governo Lula geraram resultados positivos às classes mais populares, os mais ricos também ganharam e ganharam muito.
A repercussão dessas políticas se mostram nas sucessivas vitórias eleitorais do PT ao governo federal e na grande aceitação que Lula apresentava entre o eleitorado.
Mas, como chegamos até aqui? O que trouxe de volta toda essa onda conservadora e maniqueísta à sociedade brasileira? Como Lula, o PT e o conjunto da esquerda, com seus símbolos e programas, passaram a ser tão perseguidos por determinados setores da sociedade?
Esse texto, penso, traz um conjunto de suposições que poderiam ser testadas mais adiante, a partir de uma análise séria e responsável daqueles que se propõe a pesquisar cientificamente o processo democrático. No presente momento, não me coloco a fazer análise alguma, mas procuro refletir possíveis saídas para a crise em que a esquerda brasileira está envolvida.
Após 10 anos do início dos governos petistas, 2013 parecia ser o início de uma grande celebração que findaria apenas em 2014, passado a Copa do Mundo, com a reeleição do governo de Dilma Rousseff.
No entanto, como escrevera o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra” e, tanto o governo quanto as forças que o compunham, sobretudo o PT, partido da presidenta, se chocaram com todo aquele conjunto de manifestações que tomou conta do país no início da Copa das Confederações, com os protestos de junho de 2013.
Não estou entre aqueles que pensam que as manifestações foram organizadas por um grupo conservador de direita para desestabilizar o governo Dilma. Mas acredito que, em um determinado momento, as manifestações foram utilizadas para esse fim.
Inicialmente, como é sabido, os protestos foram voltados ao aumento do valor das passagens de ônibus pela prefeitura de Porto Alegre que, em seguida, fora acompanhado por São Paulo e outras grandes capitais.
A forte repressão que os manifestantes receberam da Polícia Militar do estado de São Paulo fez com que a onda de protestos ficasse mais acalorada por todo o país. Com isso, as manifestações que iniciaram pedindo a redução do preço da passagem, terminaram pedindo mais saúde, mais educação, mais políticas públicas... Ou seja, maior presença do Estado.
O paradoxo que, a meu ver, não foi entendido pelo PT, é que os manifestantes, em sua maioria jovens, pediam mais políticas públicas, mesmo após um período considerável de expansão das políticas sociais e de mobilidade social no país promovidos por seus governos. Com isso, os petistas passaram a creditar aos manifestantes o peso da juventude, ou seja, os jovens foram às ruas protestar contra um governo que promovia inclusão social porque não conheciam os governos neoliberais da década de 1990.
Isto é, para o PT, se os manifestantes fossem um pouco mais velhos eles não iriam protestar por mais políticas porque teriam vivido um período em que não se pensava em políticas sociais. Teriam vivido um período de recessão, em todos os sentidos.
Com isso, o PT demonstrava estar estacionado. Parecia ter chegado ao limite das suas políticas em um sistema de conciliação de classes em que não se poderia atacar o grande capital para não gerar um acirramento entre elas.
É bem verdade que o governo se comprometeu em propor uma ampla reforma política com a utilização de plebiscito. É bem verdade que o governo propôs a criação de conselhos gestores afim de aumentar a participação popular nas decisões do governo. Mas, ao mesmo tempo, todas essas propostas foram rejeitadas pela maioria dos membros do Congresso Nacional, inclusive de partidos aliados ao governo, que, em momento algum, receberam um forte ataque do PT por não se alinharem à política proposta pela chefe do Executivo.
Essa aparente inoperância do PT em relação ao “pós protestos de junho de 2013” acabou confirmando o que o cientista político André Marenco escreveu em seu texto “as duas caudas de Gauss: minorias, protesto e representação política”, ao citar o sociólogo Albert Hirschman, que “períodos de grande mobilidade social costumam ser seguidos por ondas conservadoras, marcadas por uma retórica de intolerância em relação à mudança e à concessão de benefícios aos pobres”.
Durante e depois dos protestos o PT passou mais tempo reafirmando as conquistas históricas de seu governo, do que propondo avanços nas suas políticas. E, como o PT evitou de todas as formas romper com a conciliação de classes, as elites, com o receio do avanço das políticas de esquerda, resolveu pôr um fim ao acordo expresso ainda nas eleições de 2002. E, para isso, as elites utilizaram de um grande exército: a classe média.
A classe média incorporou o sentimento de não se sentir privilegiada nos governos de Lula e Dilma. Pois, enquanto os mais pobres saíam da pobreza em direção à classe C, os mais ricos também aumentavam suas riquezas. Sendo assim, a classe C era alcançada pelas classes D e E, mas mantinham distância entre as classes B e A.
E, com a política tributária que incide fortemente sobre produtos e serviços, não sobre altas rendas e lucros, a classe média se via como financiadora das políticas públicas as quais não eram beneficiadas.
Nessa lógica, as elites, sobretudo a grande imprensa, produziu um sentimento de superação aos governos não só petistas, mas de esquerda. E, como sempre fizeram na história do Brasil, utilizaram o discurso moral da corrupção que afrontava os contribuintes da classe média que, além de tudo o que já pagavam, financiavam, também, as benesses pessoais dos políticos.
Assim, ao que parece, como levantado por André Marenco, foi se firmando um sentimento de oposição às políticas progressistas que eram implementadas em nível nacional. Com isso, o moralismo foi encontrando amparo junto aos conservadores que ainda existiam em nossa sociedade, só que de forma avergonhada.
Com o peso que as pautas das minorias ganharam nos governos do PT, sobretudo com a criação de uma Secretaria de Direitos Humanos, com aparato de Ministério, poucos tinham coragem de afrontar o debate de superação ao racismo, a homofobia, ao machismo. O máximo que encontrávamos era o discurso de negação dessas práticas.
Hoje, encontramos grupos de homens e mulheres que se declaram machistas. Ou, de pessoas que utilizam a expressão “mimimi” para as denúncias de racismo e homofobia. Isso tudo em nítida oposição ao discurso das minorias.
A fala carregada de preconceito e ódio que diz “bandido bom é bandido morto” sugere que o Brasil abandone as práticas garantistas no campo da justiça e adote uma prática de justiçamento, sobretudo contra os mais pobres e negros.
A raiva ao ter que dividir o aeroporto com pessoas de bermuda e chinelo, como naquele famoso caso da professora universitária que publicou em sua rede social que o ambiente já não era mais seleto, comparando-o a uma rodoviária, demonstra bem os anseios daqueles que acreditam que o lugar do pobre é na favela e não no asfalto.
Ou seja, ao que parece, o sucesso das políticas de inclusão econômica e social dos governos petistas resultaram no avanço das forças conservadoras que se colocam em forte oposição a uma lógica política que, em algum momento, possa vir a subverter o status quo. E, a meu ver, a insegurança do PT em dar um passo a frente nas suas políticas deu condições para que as elites se organizassem em ataque às forças progressistas.
Após o exposto, me arrisco a fazer algumas reflexões acerca do futuro da esquerda no Brasil no sentido de sair da crise em que está colocada.
O grande debate colocado aqui é o da democracia. Segundo Bobbio, democracia, no sentido poliárquico,
busca as condições da ordem democrática não em expedientes de caráter constitucional, mas em pré-requisitos sociais, isto é, no funcionamento de algumas regras fundamentais que permitem e garantem a livre expressão do voto, a prevalência das decisões mais votadas, o controle das decisões por parte dos eleitores, etc.
No entanto, o debate da democracia deve ser no alargamento do seu sentido para além do sentido liberal. A valor da democracia, para as esquerdas e para as demais forças progressistas, deve ser no sentido de radicalizar o sistema democrático.
O professor de Filosofia Jurídica da Faculdade de Buenos Aires, Carlos María Cárcova, em seu texto “Estado Social de Direito e Radicalidade Democrática”, apresenta alguns tópicos para uma nova democracia, entre eles é importante citar a sua reflexão acerca de um novo Estado democrático que “deve privilegiar, organicamente, a participação popular em todos os assuntos de interesse público, habilitando, em tudo quanto seja possível, a realização autogestionária da política.”
Ou seja, as esquerdas e as forças progressistas devem pensar e privilegiar nos governos locais em que estão inseridas espaços de construção coletiva dos rumos do governo, inclusive em períodos de crise econômica para que a população contribua nessa tarefa de sair da crise.
Em tempos de retração econômica, cortar gastos é sempre a primeira saída pensada pelos gestores públicos, justamente em um momento em que as pessoas mais precisam da força do Estado. Criar espaços de construção política coletiva contribui para oxigenar o pensamento em relação as formas de combate à retração, bem como abre espaço para pensar políticas públicas eficazes com baixo custo.
Além disso, atualmente, o cenário pelo qual atravessamos é de disputa de hegemonia. As forças conservadoras andam à rua, e pelas redes, buscando constituir elementos simbólicos dessa luta. Buscam, de alguma forma, dizer o que é certo e o que é errado a partir de um moralismo tacanho.
Sendo assim, penso, que os movimentos sociais e os partidos de esquerda devem promover cada vez mais debates, atos, atividades culturais, que dialoguem com as pessoas sobre aquilo que o Fórum Social Mundial nos ensinou a ter como utopia que é a construção de um novo mundo possível.
As esquerdas devem se organizar em conjunto, priorizando pautas comuns, afim de constituir uma ampla frente organizada, tendo como princípio a solidariedade mútua e a socialização das práticas bem sucedidas.

Finalmente, a solidariedade entre as esquerdas deve prevalecer acima de tudo. O inimigo comum está para além das nossas trincheiras. E não são as pessoas. Mas a ideologia capitalista que cria um sistema individualista e individualizante.