domingo, 11 de fevereiro de 2018

Revolta da Chibata




Rafael Freitas, Historiador Alvoradense, Membro fixo do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata e Comunicador da Rádio Comunitária a Voz do Morro








Revolta da Chibata

O historiador não deve ser subserviente ao vocabulário e às lógicas de apreensão do mundo presentes nas fontes, visto que a História deve conter a crítica das ilusões que existem em todas as épocas. Logo, essa ideia poderá ser muito válida para interpretarmos a Revolta da Chibata, cuja fonte primária mais importante é a carta de 22 de novembro de 1910, redigida por Francisco Dias Martins, que poderá nos dar muitas pistas sobre esse fato histórico durante a movimentada Primeira República, quando os negros trabalhadores repetiam seus ancestrais ao perceberem que viviam na escravidão e, como aqueles, reagiram com potência a nos causar motivação, nos contextos atuais, para novas revoltas populares.
A Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, aconteceu no Rio de Janeiro, pouco depois do fim da escravidão com a Lei Áurea de 1888. Com a dignidade de um mestre-sala dos mares, o Almirante Negro viajava pelo mundo, pois era membro da Marinha de Guerra brasileira, que sangrava em rubras cascatas que jorravam pelas costas dos negros trabalhadores, vitimados pelas chibatadas e outros castigos. Ressaltemos o fato de que não houve protesto popular em apoio aos revoltosos, que lutaram sozinhos, inclusive entre si, contra as suas circunstâncias.   Mesmo assim, obtiveram vitórias.
Os bons ventos financeiros no Brasil fizeram o governo realizar uma modernização radical da marinha de guerra, com compra de navios, bem como viagens para treinamento de marujos e oficiais à Inglaterra. Em primeira instância, isso resultou em melhora técnica e científica, contudo uma situação de insubordinação foi crescendo e fez parte da gestação de um movimento. Foi alugado um sobrado na Rua dos Inválidos 71, onde vários marinheiros reuniam-se diariamente para articulação da revolta: Revolta dos Marinheiros, Revolta da Chibata, Revolta dos Negros Trabalhadores, tratados todos como escravos. Foram 4 dias de rebelião, na primeira revolta no mês de novembro.
Em seguida, no dia 10 de dezembro de 1910, aconteceu a segunda revolta, todas durante o governo do presidente Hermes da Fonseca, na República do Café com Leite. Era mal visto um presidente “fazer” o seu sucessor e o voto pouco valia nas decisões eleitorais: mandavam mais o apoio das oligarquias regionais, do governo e da polícia. Assim, a infelizmente ainda muito pouco estudada, campanha civilista foi uma inspiração para os marinheiros, conforme documentos produzidos pelos oficiais; nas suas opiniões, a campanha civilista trouxe abalo à disciplina. Destaquemos que o fato imediato – ou o estopim da Revolta – foi o castigo do marinheiro baiano Marcelino Rodrigues Menezes, condenado a 250 ou 385 chibatadas no encouraçado Minas Gerais; assim afirma a História “profana” ou materialista, afinal tanto todo homem, quanto toda mulher, é formado pelas circunstâncias.
Nesse sentido, voltemos à carta de 1910, porquanto ela nos mostra os limites do movimento que gerou a Revolta da Chibata. Os marinheiros rebelados e liderados por João Cândido, a bordo de encouraçados recém adquiridos, com seus canhões apontados para a sede do governo federal, reivindicavam o fim dos castigos físicos e melhores condições de trabalho. Houve casos de marinheiros açoitados por quinhentas e até oitocentas chibatadas, uma vez que havia duas legislações que permitiam as torturas como punição, eram os Artigos de Guerra e os Códigos Penal e Militar da Armada.
Não obstante, inúmeras vezes os limites de chibatadas eram ultrapassados e podiam levar à morte do trabalhador. Os marinheiros não aguentavam mais os castigos corporais, o trabalho excessivo nas embarcações, os vencimentos muito baixos – além da péssima alimentação – e começaram a fazer diversas ações para melhorar as suas condições de vida. Todas essas iniciativas foram em vão, de tal modo tiveram que partir para as ameaças de bombardear a cidade do Rio de Janeiro, porém somente as ameaças eram insuficientes, logo agiram e fizeram o que ficou conhecido na nossa História como a Revolta dos Marinheiros ou a Revolta da Chibata.
O conflito começou como uma luta de negros contra brancos, ou dos que trabalhavam contra os que mandavam. Lê-se na carta: “[...] tendo a seu bordo prisioneiros todos os Oficiais, os quais têm sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa [...]”. Os rebeldes reconheciam que a troca da monarquia para a república não foi o necessário para torná-los cidadãos, em seguida solicitando ao presidente que as leis republicanas chegassem a eles: “[...] mandamos esta honrada mensagem para que V. Exª. faça os Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita [...]”. Solicitavam, ainda: “[...] retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir à Nação Brasileira”. Os marinheiros rebelados, nas suas palavras, estavam dentro dos limites do nacionalismo e da democracia liberal, que estava sendo construída em nosso país.
Em outro viés, as frases dos documentos, como as palavras em depoimentos, mostram-nos as ilusões dessa época sobre ela mesma. Os marinheiros tiveram contatos com armadas de outros países que não tratavam seus marujos como se fossem escravos – João Cândido se alistou na armada brasileira em 1895 e estava entre esses marinheiros que conheceram diversos países. Em seu retorno, criou um comitê formado pelos marinheiros para organizar uma revolta e formar comitês nos outros navios para realizar o motim em uma data definida, após diversas reuniões. O Almirante Negro tornou-se um Oficial, inverteu a “pirâmide social” dentro da armada brasileira e, durante quatro dias, os negros comandaram os navios de guerra, fazendo o estado brasileiro abolir de uma vez por todas a chibata e outros castigos físicos na armada.

Seguidores de João Cândido, de Augusto Malta (Fonte: Rio de Janeiro 1900-1930, G. Ermakoff Casa Editorial, 2003)

Outro fato a ressaltarmos é que, com o tempo, aumentou a desconfiança da oficialidade nos próprios marinheiros que não aderiram à revolta contra a chibata. No segundo dia do novo regime republicano, em 16 de novembro de 1889, um decreto extinguiu os castigos corporais na Armada, mas as mudanças sociais na História do Brasil não ocorreram por meio de decretos. Em cinco meses, o governo provisório baixou outro decreto, retomando os castigos corporais.
As bandeiras vermelhas e lenços da mesma cor eram símbolos da rebelião de 1910, representação fiel do vermelho do sangue que pingava a cada punição com açoites nos trabalhadores negros, de novo escravizados, agora durante a República. As ordens do presidente Hermes da Fonseca para reprimir militarmente a rebelião foram recebidas com má vontade pela marujada que não optou pela revolta, tanto que muitos sabotaram toda reação do governo. Esses marujos, com essa atitude solidária, demonstraram que a Revolta da Chibata foi influenciada por uma consciência de classe que estava sendo constituída nos trabalhadores no Brasil. Uma rebelião vitoriosa, embora acompanhada de derrota dos rebeldes, pois a oficialidade, mais uma vez, estava sedenta por vingança: transformou a anistia numa armadilha. Muitos marinheiros foram mortos na tentativa de acabarem com a escravidão na esquadra, navios foram desarmados, canhões desativados e marujos intimidados.
No dia 27 de novembro foi decretada pelo presidente marechal uma permissão para dar baixa em marinheiro que fosse considerado indisciplinado (um eufemismo para rebelde). Francisco Dias Martins foi um dos primeiros marinheiros a ser expulsos e, em 09 de dezembro, navios da Revolta da Chibata já estavam desarmados. O Scout Rio Grande do Sul foi enviado para Santos para reprimir uma greve em um navio de marinha mercante. Uma parte do novo conflito terminou antes da meia noite, mas, no batalhão naval, ele seguiu acontecendo. A História estava movimentada, às 10h30min do dia 09 de dezembro, duas companhias dão “vivas à liberdade” e “morras ao carrancismo” (vide carranca, pessoas que vivem do passado, no caso, escravista). Foi o início da segunda etapa da Revolta da Chibata, quando os marinheiros demonstraram-se relutantes quanto à consciência de classe.
De tal modo, aparelhos telefônicos foram inutilizados, disparos eram dados, apagou-se toda iluminação, rebeldes tomaram rapidamente a entrada dos edifícios, soltaram os presos, e armaram-se. Em resposta, o batalhão naval foi bombardeado por dez horas no dia 10 de dezembro, sem respeito à bandeira branca. Foi um golpe contra os anistiados e uma busca por motivos para aprovação do estado de sítio, por meio de repressão ilegal aos ex-rebeldes que foram contra essa segunda fase da Revolta da Chibata. A proposta de nova revolta não foi aceita pelo Minas Gerais, São Paulo e outros navios; o próprio Almirante Negro não aceitou participar e, quando essa revolta estourou, os ex-revoltosos dispararam contra os colegas rebelados.
Em 11 de dezembro de 1910 João Cândido foi preso e cerca de 200 marujos foram expulsos no ano seguinte. No Massacre da Ilha das Cobras, aconteceram 16 mortes, apenas Zanot e João Cândido sobreviveram. O Caso Navio Satélite, foi outro fato histórico demonstrando a reação do governo contra os negros trabalhadores da marinha brasileira rebelados contra a chibata e péssimas condições de trabalho, sobrou fuzilamento, assassinatos, foi um capítulo insensato das jornadas de 1910.
A Revolta da Chibata nos mostra que, conquanto não tivesse um projeto de mudança social, ou econômica, ela provocou uma inversão na hierarquia, uma anástrofe das relações entre quem trabalhava e quem mandava na Marinha Brasileira durante aqueles dias memoráveis. Todavia, nada disso poderá ser encontrado em fontes primárias dos rebeldes sobre os acontecimentos que eles foram protagônicos, a exemplo da carta de 22 de novembro de 1910. Por conseguinte, a ordem “normal” na formação social brasileira durante a Primeira República foi a de lutas sociais, por todas as regiões no país.

Sugestão de leitura sobre a Revolta da Chibata:
FILHO, Mário Maestri. 1910: A Revolta dos Marinheiros. São Paulo: Global, 1982.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Por que iremos superar essa onda conservadora: breves considerações






Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais  pela UFRGS e Militante de Causas Sociais.






Às pessoas que me leem, desde já preciso dizer que esse artigo não está calcado em um grande conceito teórico, como os que costumo escrever, tampouco tem seu sucesso garantido a partir de experiências já vividas até o momento (ao menos que eu tenha conhecimento).

Todavia, mesmo assim, não posso deixar de escrever as percepções que eu tenho a respeito de todos os movimentos pelo quais temos passado.

Se é verdade o que o sociólogo Albert Hirschman escreveu a respeito do avanço das ondas conservadoras, e tendo a pensar que sim, será que poderíamos esperar que o inverso disso também seja verdadeiro?

O cientista político André Marenco resgata o pensamento de Hirshman no artigo “as duas caudas de Gauss: minorias, protesto e representação política” ao afirmar que “períodos de grande mobilidade social costumam ser seguidos por ondas conservadoras, marcadas por uma retórica de intolerância em relação à mudança e à concessão de benefícios aos pobres”.

É inegável as mudanças sociais que o Brasil viveu nos primeiros 15 anos do século XXI. A economia brasileira foi uma das que mais que cresceu, no mundo, nesse período. O Brasil se tornou um dos países mais respeitados politicamente na comunidade internacionais. Internamente, milhares de pessoas saíram da miséria, ingressaram em universidades, ocuparam bons espaços no mercado de trabalho (com salário mínimo valorizado), passaram a ter poder compra e crédito, adquiriram imóveis, automóveis e demais bens.

Ora, se todo esse período de grande mobilidade social vivido no Brasil não foi capaz de conter o avanço dos conservadores, com sua política moralista, fazendo com que fôssemos inundados por essa grande onda que parece não ter fim, tendo a pensar que todas as políticas antiprogressistas, anti-igualitárias, antipovo, que estão sendo implementadas por esse grupo político nos espaços de poder em que eles estão ocupando, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, cairão por terra.

Não quero dizer aqui que o pensamento de Hirschman seja determinista, até porque, penso, se assim fosse, não seria possível, em momento algum, fazer a revoluçãoi tão necessária para a construção de uma sociedade extremamente democrática e humanitária.

No entanto, levando em consideração esse pensamento sobre a ascenção da onda conservadora, que cresce à medida da mobilidade social em uma sociedade, tendo a pensar que o resultado desastroso às camadas mais populares das políticas implementadas após anos de sucesso econômico e social, levam ao ressurgimento dos grupos progressistas e/ou das políticas progressistas a que outrora a sociedade esteve exposta.

Ou seja, o fracasso das políticas conservadoras, moralistas e, paradoxalmente, de cunho neoliberal, está exatamente atrelado ao seu êxito em encontrar espaço na sociedade e ascender aos espaços de poder.

Por isso, não vislumbro outra realidade que não seja a de superação da onda conservadora, pois, enquanto esses grupos procuram fazer “terra arrasada” de tudo o que foi construído para, com isso, implementarem seu programa ideológico que ataca, sobretudo, os mais pobres, estes, que passaram a ser abandonados pelo Estado, passam a rememorar os tempos de superação da miséria a que viviam.

E ao fazerem esse processo de relembrar e, acima de tudo, compreender e reconhecer as mudanças pelas quais passaram, é que as trabalhadoras e os trabalhadores passam a aspirar por novos rumos que as façam “crescer na vida”, novamente.

Nesse sentido, cabe às esquerdas um discurso de esperança, um discurso de confiança na capacidade das pessoas em voltar a transformar a realidade brasileira de forma inclusiva, democrática.

Fazer com que as pessoas voltem a sonhar com um futuro onde mulheres e homens sejam livres. Um futuro onde haja fraternidade, igualdade, humanidade. Um futuro onde a democracia seja plena e todas e todos tenham acesso ao que desejarem. Um futuro onde ninguém esteja sob o domínio de ninguém.

Mas, que acima de tudo, esse futuro possa ser construído em conjunto com a sociedade, pois, somente desse forma é que será possível, após anos de avanços e mobilidade social, superar qualquer ensaio conservador que possa querer fermentar nos porões de nossa sociedade.



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Ao falar em revolução, não me refiro, necessariamente, àquelas revoluções comunistas até aqui conhecidas no mundo, que tiveram seu valor histórico, mas que ficaram no tempo. As revoluções armadas, como a da Rússia e a de Cuba, por exemplo, penso, não têm mais espaço em uma nova sociedade. No entanto, me refiro a revoluções culturais, que são constituídas, em grande parte, por uma educação libertadora e comprometida com as classes populares. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Direitos humanos para todos



Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de Causas Sociais.


Direitos humanos para todos





Segundo o filósofo grego, Aristóteles, “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”. Esse princípio é importantíssimo na compreensão da importância da constituição dos direitos humanos.

O terror espalhado pelo mundo durante a Segunda Guerra Mundial, que matou milhares de pessoas, desses, cerca de 6 milhões de judeus, no extermínio étnico em massa durante o holocausto, promovido pela Alemanha Nazista; que apresentou ao mundo o horror das bombas atômicas norte-americanas, que fizeram por volta de 300 mil vítimas no Japão; que devastou a Europa; etc., fizeram com que o mundo, após o fim daquela que havia sido a pior batalha em escala mundial, buscasse controlar a força dos Estados Nacionais e criar condições de dignidade e proteção às pessoas.

Dessa forma, em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou e assinou a Declaração Universal dos Direitos Humanos que tem por fundamento garantir que as pessoas tenham direito à liberdade, à vida, à segurança, etc. Além disso, a carta prevê que ninguém será submetido à perseguição, à tortura, ou qualquer coisa do gênero, mas que terá tratamento justo de acordo com os tratados da lei.

Ou seja, a todas as pessoas será dado tratamento igual e digno.

No entanto, em sociedades cuja desigualdade socioeconômica impera, a desigualdade de posição dos indivíduos na sociedade faz com que estratos sociais sejam criados e, com isso, direitos sejam negados a uns, em detrimento de outros. O que passa a configurar, então, não mais um direito substantivo, mas a uma dádiva a alguns poucos.


Por isso, pessoalmente, gosto de utilizar a expressão “direitos humanos são para todos”, pois, partindo do princípio aristotélico de que “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”, significa que é preciso lutar por aquilo que parece ser o mais básico em um Estado Democrático de Direito, que é a garantia do direito a todas as pessoas sem discriminação, garantindo a equidade social, econômica e legal.

No meu entendimento, referir que os direitos humanos devem alcançar todas as pessoas, significa dizer que não pode ser aceito, nas sociedades atuais, que alguns poucos tenham mais condições de acessar os direitos fundamentais, do que a maioria da população, pois, sendo assim, o direito dos poucos deixa de ser direito e passa a ser benesse.

Além disso, afirmar que os direitos humanos devem ser para todas as pessoas, é fazer o contraponto urgente à ideologia que tem sido difundida de que “direitos humanos devem ser para humanos direitos”.

Ora, quem são os tais “humanos direitos”? Alguns dirão que são aqueles que não roubam, não traficam, não cometem nenhum tipo de crime, que trabalham e se sustentam a si e sua família mesmo com dificuldade. Poderia concordar facilmente com essa conceitualização dada por determinado grupo, difusor da ideologia dominante, que faz com que o senso comum abarque determinada ideia.

Entretanto, é inegável que, diante das condições históricas do povo brasileiro, esse conceito não se traduz tal qual o imaginário social. Ou seja, somos uma sociedade que escravizava os negros até 130 anos atrás. Somos uma sociedade que, ao “abolir a escravidão”, relegou o povo negro ao abandono e à miséria. Vivemos em um país que, ao “acabar com o trabalho escravo” (???), deixou o povo negro desempregado e abriu espaço aos imigrantes para comporem a mão de obra assalariada.

Essa postura do governo e da sociedade brasileira, fizeram com que bolsões de miséria fossem criados no Brasil. Com a miséria, o crime passou a ser uma saída contra a fome. E assim por diante.

Assim, chegamos no século XXI com a quarta maior população carcerária do mundo (atrás somente dos Estados Unidos, da China e da Rússia), alcançando um total de 622 mil presos. Desses, 61,6% são negros e negras.

Além disso, o povo que mais morre, no Brasil, é negro. E é jovem.

Ora, o grupo que defende que “direitos humanos devem ser para humanos direitos”, defende que o direito continue a ser propriedade daqueles à quem o direito sempre serviu: aos mais ricos e poderosos.


Por fim, reafirmar que os direitos humanos devem ser para todos, é reafirmar a necessidade de construirmos uma nova sociedade, mais humana, mais fraterna, mais igualitária e mais justa. 

domingo, 26 de novembro de 2017

Afinal, o que querem os estudos de gênero?




Cristine Severo é Mestra e Graduada em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora pela Rede Pública em Novo Hamburgo - RS



Afinal, o que querem os estudos de gênero?





     Nos últimos tempos, tem sido frequente uma enorme ojeriza em relação aos estudos de gênero, ao movimento feminista ou a qualquer pauta relacionada aos temas LGBTQ. Assisti a um vídeo na internet que mostrava crianças se posicionando contra a tal “ideologia de gênero” (eu realmente não sei o que é isso!), falando em Deus, dizendo que não nasceram erradas e que Deus não errou. O que vi no vídeo foi uma ignorância gigantesca sobre o que são os estudos de gênero. A internet e os brasileiros estão tomados pelo vírus da ignorância, cujos sintomas são: falar sobre qualquer assunto sem ler e sem pesquisar, não aceitar o diálogo, citar Deus quando não deveriam, não querer aprender sobre o assunto, entre outros ainda não descobertos (é possível que os sintomas se manifestem de forma diferente em cada pessoa dependendo do nível de intolerância de cada um).
     Felizmente esse vírus tem cura: se chama pesquisa e leitura. Se, mesmo depois de ler e pesquisar sobre os assuntos, as pessoas ainda forem contra, pelo menos o são com propriedade, e não baseados em Deus ou algo do tipo. Não que Deus não seja importante, mas não é um argumento científico válido, além de não ser real para todo mundo. Algumas pessoas acreditam em outros deuses, outras nem acreditam, então, sempre que Deus entrar na conversa, haverá um ponto de vista religioso não compartilhado por todos, o que deslegitima sua presença como argumento válido.
     Como algumas pessoas não se darão ao trabalho de ir atrás da cura para o mal que as assola, será necessário um tratamento intensivo de urgência. Nesse texto, pretendo esclarecer algumas questões óbvias para quem está dentro dos estudos de gênero, mas que ainda são desconhecidas para os portadores do vírus.
     Para esses enfermos, os estudos de gênero afirmam que as pessoas podem escolher ser homens ou mulheres. Não existe nada mais mentirosa que essa afirmação. Os estudos de gênero NÃO afirmam isso! Os estudos de gênero afirmam o seguinte (presta atenção que esta será a primeira dose da cura): o sexo biológico não determina o gênero social. Os estudos de gênero separam sexo biológico de papeis sociais. Assim, cada pessoa nasce com determinada genitália (vagina ou pênis), com determinados hormônios (progesterona/estrogênio ou testosterona) e com o DNA feminino ou masculino. Isso é biológico. O que não é biológico são os papeis sociais que cada gênero assume na sociedade. Assim, quando uma criança nasce, uma série de atribuições é feita aquele corpo, dependendo da genitália que veio com ele. Se for uma genitália feminina, as atribuições serão: doce, passiva, amorosa, mãe, princesa, rosa, bonecas, cuidado, cozinhar, lavar, limpar, casamento, restrição sexual, entre outras. Ou seja, todas as características SOCIAIS pertencentes às mulheres serão projetadas nesse corpo. Se for uma genitália masculina, as atribuições serão: forte, másculo, uma certa dose de agressividade, ativo, conquistador, competitivo, azul, provedor, estímulo da sexualidade, pegador, entre outros. Ou seja, todas as características SOCIAIS pertencentes aos homens serão projetadas nesse corpo.
     Onde entram os estudos de gênero nisso tudo? Eles afirmam que essas características sociais projetadas nos corpos não são biológicas, são construções culturais! E mais, essas construções podem ser diferentes em cada cultura. Assim, na cultura ocidental nós temos determinadas construções culturais femininas e masculinas, mas nas culturas indígenas ou aborígenes, por exemplo, as construções culturais de feminino e masculino podem ser diferentes.
     É isso que quer dizer a famosa frase de Simone de Beavouir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”
Com isso, ela quer dizer que nada de biológico define o Ser mulher na sociedade, ou seja, nenhum destino biológico molda as características atribuídas às mulheres. Ela quer dizer que Ser mulher é algo elaborado pela civilização na qual essa mulher vive, ou seja, pela cultura. Assim, aquelas características, ou papeis, atribuídos ao corpo com genitália feminina são culturais, e não biológicas. Primeira dose completa.
     Segunda dose: os estudos de gênero, e aqui entram também os estudos de Judith Butler, afirmam que essas atribuições sociais, ou seja, essas construções culturais são impostas às pessoas. Impostas no sentido de estarem cristalizadas e naturalizadas em nossa cultura. A maioria das pessoas se encaixa nesses papeis sociais, ou seja, a maioria das pessoas pode se chamar de cisgênero (pessoas que têm o sexo biológico e o gênero social em concordância). Essas pessoas são aceitas pela sociedade e não sofrem preconceito. No entanto, existem outras pessoas que não se encaixam nesses papeis sociais. Essas são as transgêneros. São pessoas cujo sexo biológico e o gênero social estão em discordância. Essas são as identidades de gênero de cada pessoa, que NÃO são uma escolha!! A pessoa nasce cisgênero ou trangênero, ou se sente assim! Até aqui, ninguém falou que as pessoas são obrigadas a ser transgêneros. Apenas foi dito que existem pessoas que são. Se você não é uma pessoa transgênero, ótimo! Ninguém acha que você deveria ser uma!
     Os estudos de gênero afirmam que as pessoas transgêneros sofrem estigma por o serem, sofrem preconceito e não são aceitas pela sociedade da mesma forma como as pessoas cisgêneros. São corpos abjetos, segundo termo de Judith Butler. E é aqui que entra Foucault, também, com o conceito de corpo normalizado, o corpo educado. O corpo é educado para ser normal. E o que é ser normal? É ser cisgênero, heterossexual e seguir as atribuições sociais que são designadas para esse corpo de acordo com a genitália presente nele. O problema não é ser cisgênero, heterossexual e seguir os papeis sociais atribuídos aos homens e mulheres. O problema é essa ser a única possibilidade de normalidade dentro da nossa sociedade. Ocorre que alguns corpos não são “normais”. São considerados corpos abjetos, corpos que não importam (Judith Butler).


     O que querem afinal os estudos de gênero? Os estudos de gênero não querem, em hipótese alguma, impor que as pessoas sejam transgêneras, ou homossexuais, ou que menino vire menina e vice versa. Quem diz isso é o vírus que está se propagando pelo Brasil. Os estudos de gênero querem que as pessoas que não se encaixam nesse conceito de “normal” também sejam aceitas. Existem pessoas trans, existem pessoas homossexuais, existem pessoas queer, existem pessoas que não se encaixam nos papeis sociais atribuídos a sua genitália. Existem mulheres que são agressivas, mandonas, competitivas, existem homens que são doces, passivos, amorosos. Essas pessoas não se encaixam nos papeis de gênero. O que os estudos de gênero querem é que todos sejam aceitos, que todos possam ser quem realmente são. Inclusive que as pessoas possam sim seguir os papeis de gênero e que as mulheres possam ser doces, maternais e amorosas e que os homens possam ser competitivos e ativos. Ninguém diz que não podem sê-lo. O que os estudos de gênero querem é acabar com o preconceito e com a ojeriza a quem não segue os padrões. Por isso os estudos de gênero falam tanto em diversidade, pois as pessoas são diversas e nós afirmamos que cada diversidade deve ser respeitada. E se é pra colocar Deus no meio da conversa, o próprio Jesus ajudou a prostituta, os leprosos e os famintos, ou seja, os párias sociais, ao invés de xingá-los, excluí-los e humilhá-los.       Quem mais fala em Deus é quem menos pratica sua palavra. Quem realmente segue Jesus ajuda a travesti, a transgênero, o homossexual, todos os párias sociais da modernidade. E para aqueles que acreditam que essas pessoas vivem sem preconceito, basta lembrar que o Brasil é o número um em assassinato de travestis.

     Creio que essas palavras sejam apenas o tratamento inicial, que é longo e doloroso, pois muitas mentiras terão que ser desfeitas. Mas ajuda as pessoas a saber do que estão falando. A partir de agora, quem for criticar os estudos de gênero, que o faça com propriedade e não citando Deus ou mentiras adquiridas com esse vírus maldito que impregnou as pessoas. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Cuidado! Não caia no conto do “bom moço”.



Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de Causas Sociais






Cuidado! Não caia no conto do “bom moço”.

Exatamente. Não caia no conto do “bom moço”.

No primeiro domingo de novembro de 2017, Fernando Henrique Cardoso, o “príncipe da sociologia” no Brasil, escreveu um artigo, para O Globo, intitulado “Hora de decidir”.

Nesse artigo, o ex-presidente, e intelectual, disserta sobre a conjuntura política, faz algumas análises, se atreve a fazer raríssimas previsões e, por fim, mostra, ao PSDB, partido político ao qual é filiado, um rumo a seguir.

Ao fazer críticas ao governo Temer, embora defenda que o seu partido deva impulsionar as reformas apresentadas pelo atual governo, Fernando Henrique defende a saída imediata, a partir da convenção partidária em dezembro (algo nem tão imediato assim), do PSDB da base aliada de Temer, lugar em que esteve desde o golpe de 2016.

Além de mostrar certa preocupação com a crise política instaurada no país.

Tudo isso, firmado na sua velha mania de grandeza e autopromoção. Afinal, Fernando Henrique, faz questão de lembrar que venceu lula por “duas vezes quando ele já era um líder partidário de massas”, na tentativa de afirmar que é possível vencer Lula e o PT em uma disputa eleitoral (e também para lembrar que ele é o único tucano que venceu os petistas em uma eleição nacional).

Mas até aqui tudo bem. Todas as linhas escritas por Fernando Henrique Cardoso talvez fossem bem recebidas se não fosse um importante detalhe: Fernando Henrique deu aval para que Aécio Neves e o PSDB, em sua sanha tresloucada de tomar o poder, organizassem um golpe à democracia brasileira em pleno século XXI e, após a derrubada de uma presidenta democraticamente eleita, que não cometera crime algum que justificasse seu impeachment, ficasse mais do que ao lado de Temer (o Usurpador), mas ocupasse o governo com ministérios importantes.

Fernando Henrique silenciou quando João Dória, e as demais lideranças do PSDB, em reunião do Diretório Estadual do partido, em São Paulo, no mês de junho de 2017, mesmo depois dos vários escândalos de corrupção do governo divulgados, defenderam o apoio e a permanência do PSDB ao governo Temer, pois, segundo o prefeito da capital paulista, “nosso inimigo chama-se PT”.

Fernando Henrique calou completamente diante do acordo de salvamento mútuo realizado entre PSDB e PMDB, no mês de outubro, qual seja: o PMDB ajudava a salvar o mandato de Aécio Neves, afastado pelo Supremo Tribunal Federal por suspeita de cometer vários crimes, enquanto o PSDB, na Câmara, ajudaria a barrar a denúncia contra Michel Temer.

Ou seja, Fernando Henrique Cardoso tem calado e apoiado e os movimentos realizados pelo seu partido até aqui. Fernando Henrique tem defendido a necessidade de aprovação das reformas, que atacam diretamente os trabalhadores e as trabalhadoras, porque essas reformas fazem parte do projeto do PSDB e da sua forma de governar.

Agora, o ex-presidente vem a público defender a saída do PSDB do governo e execrar Michel Temer, como se ele, e o seu partido, não tivessem responsabilidade alguma por toda essa crise instaurada no Brasil desde a reeleição de Dilma Rousseff.

Nada mais eleitoreiro do que isso.

O PSDB, em conluio com o PMDB, fizeram de tudo para que Dilma Rousseff não conseguisse governar a partir da sua vitória eleitoral em 2016.

O PSDB se tornou a nova UDN. Mas Fernando Henrique Cardoso ainda quer posar de “bom moço”. Cuidado!



REFERÊNCIAS:

CARDOSO. Fernando Henrique. Hora de Decidir. Disponível em <http://noblat.oglobo.globo.com/artigos/noticia/2017/11/hora-de-decidir-05-11-2017.html> último acesso em 07 de nov. de 2017.


R7. Em reunião do PSDB, João Dória defende Temer: “Nosso inimigo chama-se PT”. Disponível em <https://noticias.r7.com/brasil/em-reuniao-do-psdb-joao-doria-defende-temer-nosso-inimigo-chama-se-pt-06062017> último acesso em 07 de nov. de 2017.

sábado, 21 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo


Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de Causas Sociais


Precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo






Mais uma vez o Brasil chora por mortes em escola. Em menos de um mês, fomos surpreendidos por dois graves ataques. O primeiro, em uma escola de educação pública infantil de Minas Gerais, quando um vigia daquela instituição ateou fogo em algumas crianças e em si próprio. O segundo, em uma escola particular de Goiás, um adolescente atirou contra os próprios colegas dentro da sala de aula.

Não pretendo me ater ao primeiro caso, que, segundo investigações policiais, está ligado a transtornos mentais sofridos pelo criminoso. Também não quero escrever especificamente sobre o segundo, mas sobre as questões que o envolve. Ou seja, penso que precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo.

Os adultos de hoje, entre os quais me incluo, são de uma geração em que era muito comum a propagação de piadas de cunho racista, machista, homofóbica, gordofóbica, xenófoba, etc., ou seja, costumávamos ouvir e promover piadas que atacavam determinados grupos. Não que agora isso tenha acabado, mas, entre os ouvintes, sempre tem, ao menos uma pessoa, que se sente desconfortável com piadas que possuem algumas dessas características.

Além disso, também somos de um tempo em que era muito comum rir de um colega em sala de aula por alguma característica que este apresentava. Era normal fazer chacota do “CDF”, rir do “espinhento”, brincar com o “BV”, tirar sarro do “nanico”, do “gordinho”, do “viado” e da “sapatona”. Os apelidos bizarros eram os que mais pegavam, principalmente se o apelidado se sentisse ofendido.

Não se falava em bullying. Aliás, esse conceito nem era conhecido, ao menos para as bandas de cá, do lado de baixo do equador, tendo em vista que o termo só passou a ser utilizado a partir de 1999, com o Massacre de Columbine1. Assim, quando fatos como os já relatados acima aconteciam, os conselhos dos pais, dos educadores e dos demais adultos eram sempre no sentido de não se vitimizar, de não se permitir ser atacado por aqueles que ofendiam, e, com isso, naturalizar os ataques sofridos gratuitamente.

Por isso, hoje, ainda é muito difícil falar sobre bullying. Ainda é muito difícil convencer os adultos sobre os males que o bullying pode ocasionar na vida de uma criança e de um adolescente. Ainda é difícil fazer com que as pessoas entendam o quanto o bullying fere a criança e o adolescente no seu psicológico.

O menino que atacou os seus colegas em sala de aula, levava consigo, em sua bagagem, muito mais do que o revolver dos pais. Ele levava, também, todo um sofrimento de morte por causa dos insultos que recebia. Seu apelido se referia ao fato de este não utilizar desodorante, ou talvez, quem sabe, por ter algum problema nas glândulas sudoríparas que acaba aumentando a produção de suor e, com isso, fortificando o cheiro de gente.

Aqueles que sofreram o ataque, sobretudo aqueles dois meninos que morreram, talvez até agora não saibam o porquê dos tiros. Afinal era apenas uma brincadeira. Levar um desodorante para a sala de aula para “presentear o colega” era nada além de uma brincadeira que não tinha intenção de magoar nem ferir ninguém.

Os que cometem bullying, muitas vezes, não sabem a dor que estão causando àqueles que sofrem as brincadeiras, as piadas, os ataques. Os que cometem bullying, o fazem por diversão. Os que sofrem bullying, sofrem na alma.

É necessário traduzirmos isso às pessoas. Um adolescente está em um grande processo de convulsão sentimental. O adolescente sofre muito mais do que um adulto. Um adolescente está um período da vida em que deixou de ser criança, mas ainda é tratado como criança quando se tratam de certos de assuntos, principalmente pelos pais, e não é adulto, mas, por vezes, é cobrado como um adulto sobre questões de responsabilidade.

Assim, é normal que o sentimento de frustração tome conta de um adolescente. E, como somos ensinados desde criança a escondermos os nossos sentimentos (“não chore na frente dos outros”, “não diga que não gosta de determinada coisa”, etc.), principalmente os de decepção e tristeza, o adolescente tende pensar que ele é o único que deu errado na vida. Que, em si, ele é uma decepção para os pais e para os amigos. Ou melhor, que é impossível ter amigos diante do tamanho do fracasso que é a sua vida.

Não me entendam mal. Não estou querendo dizer que os colegas do adolescente atirador, são culpados por terem despertado essa ira do menino. Todos são vítimas nessa situação. Ao mesmo tempo, talvez todos nós estejamos falhando, afinal, todos somos responsáveis por protegermos e promovermos situações dignas de vida às crianças e aos adolescentes, como preconiza a nossa Constituição Federal de 1988.

Todos falhamos quando não conseguimos nos comunicar com as crianças e com os adolescentes ao ponto de fazê-los compreender que todos somos imperfeitos. Todos falhamos quando não conseguimos abrir espaço para que esses meninos e meninas possam conversar sobre suas angústias, seus erros, suas desesperanças.

Esse menino que atirou nos seus colegas, o fez, provavelmente, porque seus sentimentos o sufocava. Mas fez, principalmente, porque tinha acesso a uma arma de fogo. Seus pais, por serem policiais militares, têm porte de arma e, por isso, podem tê-las em casa. E esse adolescente, ao se sentir sufocado, se utilizou dela para aquilo que é o objetivo da sua fabricação: atirar em pessoas e matar.

Quantos são os relatos de crianças que encontraram as armas de seus pais em casa e, sem perceberem o perigo, ao brincarem com elas, acabaram acertando a si ou a outrem. Além destes, também há relatos de adolescentes que se utilizaram de armas para ferir a si ou àqueles a que tinham por desafetos.

E, caso aqueles defensores da liberação das armas alcancem seus objetivos, quantas serão as crianças e adolescentes que estarão expostos ao perigo de se ter uma arma de fogo à mão?

A solução para o avanço da criminalidade não passa pela liberação do porte das armas de fogo. Mas por políticas públicas que sejam capazes de distribuir renda e criar justiça social no país.

Sobre o bullying e demais questões afetas às crianças e aos adolescentes, é preciso que tenhamos ações efetivas. Precisamos fortalecer ainda mais o Sistema de Garantia de Direitos das Crianças e Adolescentes. Precisamos fortificar a rede de proteção. Precisamos unificar os agentes públicos em uma política concreta.

Lembro, quando presidi o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em Sapucaia do Sul, já aconteciam reuniões mensais do que chamávamos rede de enfrentamento à violência. Nessas reuniões, o Fórum das Entidades da Sociedade Civil, organizado pelo Conselho de Direitos, juntava os agentes envolvidos com a política de crianças e adolescentes da cidade para debater os grandes temas do momento e traçar linhas de atuação conjunta.

Precisamos, cada vez mais, de ações como essas. Precisamos nos aproximar dessa nossa juventude que ainda não se tornou adulta não para tirar-lhes a autonomia, mas para dizer que sempre têm com quem contar. As crianças e os adolescentes precisam saber que o afeto não acaba. E o afeto efetivo pode salvar vidas.

1 Massacre escolar ocorrido no dia 20 de abril de 1999 na Columbine High School, em Columbine, nos Estados Unidos, cometido por alunos seniores que mataram outros 12 alunos e um professor, além de ferirem outras 21 pessoas.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A ração humana de Doria: o que tem a ver cultura e identidade com alimentação?


Renata Tomaz do Amaral RibeiroBacharela em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência nas áreas da antropologia da alimentação e antropologia urbana, da memória e da imagem, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura e alimentação, memória, meio ambiente, saberes e práticas sobre PANCs.










A ração humana de Doria: o que tem a ver cultura e identidade com alimentação?
Renata Tomaz do Amaral Ribeiro



            João Doria diz: “Pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome.”

Doria e a sua politica liberal estão desumanizando as pessoas!

         Como assim pobre não tem hábito alimentar? Se fosse possível resolver o problema da fome com soluções meramente nutricionais (só que NÃO é), poderia existir mais divulgação e fortes campanhas incentivando o cultivo e o consumo de Plantas Alimentícias não Convencionais - PANC, por exemplo. Deveriam haver oficinas e campanhas nas periferias para o aproveitamento de caules e folhas que normalmente são descartadas. Isso para não falar, que no Brasil NÃO HÁ ESCASSEZ DE ALIMENTO; se produz muito, mas nem todo mundo tem acesso.

O fato é que o problema da fome não é uma questão restritamente biológica, mas especialmente política e cultural. No caso em questão, não existe preocupação alguma com segurança alimentar, há, porém o evidente interesse do governo Doria de repassar ou isentar um valor substancial a mais uma empresa mafiosa. 

         Não apenas isto, esta é uma politica de desumanização da população pobre. Pessoas em situação de vulnerabilidade social devem ter sua cidadania e direitos garantidos. E isso inclui fundamentalmente uma alimentação nutritiva e que faça parte do imaginário coletivo da nossa sociedade. Feijão com Arroz, polenta com ovo frito, aipim na panela de ferro, purê de batata inglesa, batata-doce no forno, são alguns dos tantos pratos comuns no cotidiano do brasileiro. A comida guarda e revela identidades, visões de mundo, tradições… E consequentemente, ela nutri o corpo e a alma. E por mais que muita gente não acredite pobre é ser humano, além de nutrientes também precisa se alimentar de simbologia.

Obviamente que eu, que estudo as PANC, acho lindo que existam mais e mais pesquisas, campanhas e oficinas que divulguem e incentivem o consumo destas plantas. Todavia, para tanto é necessário que as politicas públicas estabelecidas levem em consideração as representações simbólicas e sociais de cada grupo, para que estas plantas sejam inseridas nos pratos cotidianos e típicos, respeitando a cultura e a identidade destes indivíduos. Esta seria uma das tantas opções melhores do que a ração humana do Doria!

Referências:

DA MATTA, Roberto. Sobre o simbolismo da comida no Brasil. O Correio da Unesco, Rio de Janeiro, v. 15.
FISCHLER, Claude. Las funciones de lo culinario. In: El ( h )omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Anagrama, 1995.
GARINE, Igor de. Alimentação, culturas e sociedades. O Correio da Unesco, Rio de Janeiro, v. 15, 1987.
MACIEL, Maria Eunice. Cultura e alimentação ou o que tem a ver os macaquinhos de Koshima com Brillat-Savarin? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 7. 2001.

MENASCHE, Renata; ALVAREZ, Marcelo; COLLAÇO, Janine. Alimentação e cultura em suas múltiplas dimensões. In: ________ (Org.). Dimensões socioculturais da alimentação. Diálogos latino-americanos. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2012.


MINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, 2001.