sábado, 21 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo


Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de Causas Sociais


Precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo






Mais uma vez o Brasil chora por mortes em escola. Em menos de um mês, fomos surpreendidos por dois graves ataques. O primeiro, em uma escola de educação pública infantil de Minas Gerais, quando um vigia daquela instituição ateou fogo em algumas crianças e em si próprio. O segundo, em uma escola particular de Goiás, um adolescente atirou contra os próprios colegas dentro da sala de aula.

Não pretendo me ater ao primeiro caso, que, segundo investigações policiais, está ligado a transtornos mentais sofridos pelo criminoso. Também não quero escrever especificamente sobre o segundo, mas sobre as questões que o envolve. Ou seja, penso que precisamos falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo.

Os adultos de hoje, entre os quais me incluo, são de uma geração em que era muito comum a propagação de piadas de cunho racista, machista, homofóbica, gordofóbica, xenófoba, etc., ou seja, costumávamos ouvir e promover piadas que atacavam determinados grupos. Não que agora isso tenha acabado, mas, entre os ouvintes, sempre tem, ao menos uma pessoa, que se sente desconfortável com piadas que possuem algumas dessas características.

Além disso, também somos de um tempo em que era muito comum rir de um colega em sala de aula por alguma característica que este apresentava. Era normal fazer chacota do “CDF”, rir do “espinhento”, brincar com o “BV”, tirar sarro do “nanico”, do “gordinho”, do “viado” e da “sapatona”. Os apelidos bizarros eram os que mais pegavam, principalmente se o apelidado se sentisse ofendido.

Não se falava em bullying. Aliás, esse conceito nem era conhecido, ao menos para as bandas de cá, do lado de baixo do equador, tendo em vista que o termo só passou a ser utilizado a partir de 1999, com o Massacre de Columbine1. Assim, quando fatos como os já relatados acima aconteciam, os conselhos dos pais, dos educadores e dos demais adultos eram sempre no sentido de não se vitimizar, de não se permitir ser atacado por aqueles que ofendiam, e, com isso, naturalizar os ataques sofridos gratuitamente.

Por isso, hoje, ainda é muito difícil falar sobre bullying. Ainda é muito difícil convencer os adultos sobre os males que o bullying pode ocasionar na vida de uma criança e de um adolescente. Ainda é difícil fazer com que as pessoas entendam o quanto o bullying fere a criança e o adolescente no seu psicológico.

O menino que atacou os seus colegas em sala de aula, levava consigo, em sua bagagem, muito mais do que o revolver dos pais. Ele levava, também, todo um sofrimento de morte por causa dos insultos que recebia. Seu apelido se referia ao fato de este não utilizar desodorante, ou talvez, quem sabe, por ter algum problema nas glândulas sudoríparas que acaba aumentando a produção de suor e, com isso, fortificando o cheiro de gente.

Aqueles que sofreram o ataque, sobretudo aqueles dois meninos que morreram, talvez até agora não saibam o porquê dos tiros. Afinal era apenas uma brincadeira. Levar um desodorante para a sala de aula para “presentear o colega” era nada além de uma brincadeira que não tinha intenção de magoar nem ferir ninguém.

Os que cometem bullying, muitas vezes, não sabem a dor que estão causando àqueles que sofrem as brincadeiras, as piadas, os ataques. Os que cometem bullying, o fazem por diversão. Os que sofrem bullying, sofrem na alma.

É necessário traduzirmos isso às pessoas. Um adolescente está em um grande processo de convulsão sentimental. O adolescente sofre muito mais do que um adulto. Um adolescente está um período da vida em que deixou de ser criança, mas ainda é tratado como criança quando se tratam de certos de assuntos, principalmente pelos pais, e não é adulto, mas, por vezes, é cobrado como um adulto sobre questões de responsabilidade.

Assim, é normal que o sentimento de frustração tome conta de um adolescente. E, como somos ensinados desde criança a escondermos os nossos sentimentos (“não chore na frente dos outros”, “não diga que não gosta de determinada coisa”, etc.), principalmente os de decepção e tristeza, o adolescente tende pensar que ele é o único que deu errado na vida. Que, em si, ele é uma decepção para os pais e para os amigos. Ou melhor, que é impossível ter amigos diante do tamanho do fracasso que é a sua vida.

Não me entendam mal. Não estou querendo dizer que os colegas do adolescente atirador, são culpados por terem despertado essa ira do menino. Todos são vítimas nessa situação. Ao mesmo tempo, talvez todos nós estejamos falhando, afinal, todos somos responsáveis por protegermos e promovermos situações dignas de vida às crianças e aos adolescentes, como preconiza a nossa Constituição Federal de 1988.

Todos falhamos quando não conseguimos nos comunicar com as crianças e com os adolescentes ao ponto de fazê-los compreender que todos somos imperfeitos. Todos falhamos quando não conseguimos abrir espaço para que esses meninos e meninas possam conversar sobre suas angústias, seus erros, suas desesperanças.

Esse menino que atirou nos seus colegas, o fez, provavelmente, porque seus sentimentos o sufocava. Mas fez, principalmente, porque tinha acesso a uma arma de fogo. Seus pais, por serem policiais militares, têm porte de arma e, por isso, podem tê-las em casa. E esse adolescente, ao se sentir sufocado, se utilizou dela para aquilo que é o objetivo da sua fabricação: atirar em pessoas e matar.

Quantos são os relatos de crianças que encontraram as armas de seus pais em casa e, sem perceberem o perigo, ao brincarem com elas, acabaram acertando a si ou a outrem. Além destes, também há relatos de adolescentes que se utilizaram de armas para ferir a si ou àqueles a que tinham por desafetos.

E, caso aqueles defensores da liberação das armas alcancem seus objetivos, quantas serão as crianças e adolescentes que estarão expostos ao perigo de se ter uma arma de fogo à mão?

A solução para o avanço da criminalidade não passa pela liberação do porte das armas de fogo. Mas por políticas públicas que sejam capazes de distribuir renda e criar justiça social no país.

Sobre o bullying e demais questões afetas às crianças e aos adolescentes, é preciso que tenhamos ações efetivas. Precisamos fortalecer ainda mais o Sistema de Garantia de Direitos das Crianças e Adolescentes. Precisamos fortificar a rede de proteção. Precisamos unificar os agentes públicos em uma política concreta.

Lembro, quando presidi o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em Sapucaia do Sul, já aconteciam reuniões mensais do que chamávamos rede de enfrentamento à violência. Nessas reuniões, o Fórum das Entidades da Sociedade Civil, organizado pelo Conselho de Direitos, juntava os agentes envolvidos com a política de crianças e adolescentes da cidade para debater os grandes temas do momento e traçar linhas de atuação conjunta.

Precisamos, cada vez mais, de ações como essas. Precisamos nos aproximar dessa nossa juventude que ainda não se tornou adulta não para tirar-lhes a autonomia, mas para dizer que sempre têm com quem contar. As crianças e os adolescentes precisam saber que o afeto não acaba. E o afeto efetivo pode salvar vidas.

1 Massacre escolar ocorrido no dia 20 de abril de 1999 na Columbine High School, em Columbine, nos Estados Unidos, cometido por alunos seniores que mataram outros 12 alunos e um professor, além de ferirem outras 21 pessoas.

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